Fernanda Montenegro & Débora Duarte
Revista Amiga - Tv Tudo - Edição N° 483
Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1979.
As duas faces do amor à arte
Duas grandes atrizes. Dois grandes talentos de gerações diferentes. Nesta entrevista, Fernanda Montenegro e Débora Duarte falam de seu primeiro encontro na vida e na arte. Dão suas opiniões acerca da televisão e do teatro. Contam coisas e falam de sua admiração mútua. Como na novela da Rede Bandeirantes, elas conversam cara a cara!
- Há muito tempo se sabe que existe uma admiração muito grande entre vocês a nível profissional. Quando começou esta admiração mútua?
Débora - Minha admiração pela Fernanda é muito antiga. Foi a primeira grande impressão que tive, a ponto de admirar especificamente um artista. Quando vi a Fernanda pela primeira vez, fiquei com aquela imagem na cabeça. E isto veio me acompanhando desde 1967. Depois disso, segui de perto o trabalho dela. Lia todas as entrevistas que ela dava e tinha, acima de tudo, uma vontade imensa de um dia trabalhar com ela. Isto porque acho que depois de um determinado nível, as pessoas possuem, além de talento e tudo o que as cerca, muita técnica. Isto diferencia um artista do outro. É uma característica pessoal. No trabalho da Fernanda, ela prevalece acima de tudo. Por mais versátil que seja o seu trabalho, há algo que domina, que me encanta e me apaixona. A Fernanda é um mito. Conhecê-la e trabalhar com ela foi maravilhoso porque comecei a compreender por que uma pessoa pode chegar a ser uma grande atriz.
- Então, é a primeira vez que trabalham juntas?
Débora - É. Eu bebo e sugo muito a Fernanda. Devo até deixá-la exausta. Eu olho muito quando ela esta por perto. O que faz, o jeito que fala com as pessoas. Tudo isto me apaixona e prende minha atenção.
- E você, Fernanda, o que tem a dizer?
Fernanda - A gente está aqui fazendo uma entrevista, porém, estamos jogando no mesmo time e temos uma admiração mútua muito grande. Eu me lembro de Débora desde que estive em São Paulo por volta de 67 e vi o rosto dela na televisão. Tinha uma tal integridade e uma tal interação com as coisas que estava fazendo, que prendia. Isto, na televisão, é difícil. É comum perceber-se uma espécie de névoa no olhar do ator que está representando. Um tipo de cortina que dá a impressão de que ele está olhando, mas não está. Ele está se neutralizando dentro da sua memória para passar o seu texto e se livrar logo porque depois vai ter um outro texto. É um processo mais de memória do que, propriamente, de interpretação. No caso da Débora, não vi aquela névoa que sempre me incomodou muito. Essa inteligência de se colocar no trabalho foi o que me levou a seguir a Débora na televisão. Sempre que ela está no elenco, procuro vê-la porque ela é um elemento extremamente rico.
- Você acha que a Débora devia se dedicar um pouco mais ao teatro?
Fernanda - Lamento que ela não se divida. Eu falo sempre do ponto de vista do palco e do teatro porque sou uma mulher viciada nisto. Sou deformada pelo meu ofício. Fico pensando: que pena, este bicho teatral não estar também no seu espaço do teatro! Acho que o público está perdendo isto em termos mais profundos. Não é questão de melhorar de estágio. Eu respeito muito as pessoas que são fiéis ao seu processo de vida. E também não acho que a televisão deteriore ninguém, melhore ou piore. Depende da maneira como a coisa é feita, jogada. É uma indústria de imagem, de emoção. E eu conheço gente de grande qualidade que está dentro desse processo de trabalho.
- Já que a Fernanda fez uma comparação entre o teatro e a televisão, você acha que o ator brasileiro tem condições de sobreviver sem a televisão?
Débora - A televisão oferece um campo maior de trabalho e melhores salários que o teatro atualmente. mas, nesta mesma medida, ela transforma as pessoas em funcionários públicos de TV. É menos criativo, menos estimulante e menos amado. Eu tenho uma paixão muito grande pela televisão. Me fascina muito.
- E o teatro? Não te fascina?
Débora - O teatro me fascina porque eu poderia fazer um trabalho mais aprofundado, mais maduro.
- Quer dizer, então, que a televisão para você não é apenas um meio de sobrevivência, mas também um ponto de identificação?
Débora - Olha, quando falo do meu trabalho, difícilmente uso a palavra carreira. Para mim é profissão. A Fernanda disse ofício. É Até mais bonito. Mas televisão é um trabalho que me gratifica muito. Além de gostar, eu tenho uma necessidade absoluta de ter um salário no fim do mês. Preciso dessa independência para sobreviver bem.
- E você acha que a televisão lhe oferece isto?
Débora - Sempre consegui isto através da televisão. Mas é uma independência muito instável. Acho muito sólida a segurança de alguém que conseguiu seu trabalho e sua independência através de um veículo como o teatro, teria mais estabilidade e segurança. Mas sempre fui preguiçosa. Nunca arregacei as mangas e procurei construir, produzir e seguir adiante. Sempre foi mais fácil ser procurada e continuar na televisão.
- Fernanda, o que você pensa disso tudo, já que há quase dez anos estava fora da televisão?
Fernanda - Eu fiz televisão e teatro juntos por quase vinte anos. Uma loucura, não é? Particularmente, e isso é uma opinião pessoal, acho que a luta dentro de uma televisão é como numa indústria. É arrasadora. Pouquíssimos conseguem ter transito no 2° ou 3° andar, onde está uma diretoria. Sair para jantar com o dono da estação, com o diretor artístico. Tem que haver um envolvimento extremamente executivo. A luta pelo poder é surda. E não é só o talento que vale. Diante disto, achei que o teatro é um campo de artesanato. Dá uma vida mais humana, menos tensa. Não é uma luta com relação "àquela nova diretoria" àquela novela" que vai entrar e talvez você não tenha um papel tão bom como na outra. É preciso não desagradar o autor para ele não diminuir o seu papel. É uma experiência de longos anos. Eu não estou inventando. As pessoas têm de ir a festas, cortejar a alta cúpula. Tudo isto é muito exaustivo, do meu ponto de vista. No teatro, você talvez não tenha tantas capas de revistas mas é um processo de vida mais antigo que me agrada mais. Dentro da televisão, não tenho vontade de fazer este tipo de jogo. Já estou beirando os 50 anos e me sinto cansada. Só se eu tiver realmente precisando comer, pôr algum calor no meu estômago. Mas, há quem viva bem nisto.
- E você, Débora, o que acha disto?
Débora - A Fernanda, quando fala, toma o cuidado de não julgar. É o respeito pelo ser humano. Eu não acho que exista esse tipo de pessoa que tenha facilidade para viver assim. Acho que na televisão só existem dois casos: as pessoas que dão certo porque têm sorte, independente do talento, ou porque são muito hábeis. O que é penoso na televisão é que nunca se consegue chegar lá só pelo talento. Você também tem uma dura opção: pelo prestígio ou pela popularidade. E você tem que fazê-la bem feita. Se optar pela popularidade, tem que construir uma imagem, um personagem fora da novela. O personagem que você é como pessoa. Tem que ter muito talento e usá-lo de uma maneira diabólicamente difícil de conservar. Existe a opção pelo prestígio que é onde se ganha menos, mas tem trabalho, provavelmente, a mais longo prazo. Também é triste porque para manter o prestígio, não vai bastar só o trabalho. É tudo um jogo político extremamente exaustivo.
Fernanda - É o que eu estava falando. E mesmo no momento atual, o mercado é muito pequeno.
Débora - Veja você. Eu estou na Bandeirantes há menos de um ano. Vim da Tupi onde fiquei um tempo e antes vinha da Globo. Entrei na televisão com muita facilidade. Não paguei o maior preço de todos que deve ser o de entrar para fazer qualquer coisa. Não passei por isso porque sou filha de artistas. Quando vi, estava no meio do caminho. Mas acho que nunca fiz coisas certas na televisão. Comercialmente, nunca fui um produto definido, nunca vendi uma imagem. Depois, fui tendo vários papéis de menina rebelde e ficou essa imagem mais ou menos. Por outro lado, quando acontece de ser amiga de alguém influente, é sempre por acaso. Esta é a primeira vez que estou estrelando uma novela, apesar de sempre ter tido bons papéis. Quando saí da Globo, ganhava muito mal. De repente, fui para a Tupi, a novela deu certo e meu salário aumentou. Quando vim para cá, aumentou mais e agora estou ganhando bem. Mas dependeu da sorte.
Fernanda - A Débora é uma mulher extremamente consciente. Tudo o que ela colocou reflete esta maturidade. É uma pessoa plena.
Débora - Evidentemente, tudo que estou dizendo aqui na frente da Fernanda talvez dissesse melhor se ela não estivesse aqui.
Fernanda - Esta entrevista, na realidade, é a primeira conversa que temos mais de perto. Estamos trocando impressões, como companheiras de trabalho. Infelizmente, nesta novela quase não nos encontramos.