Escândalo No Cinema! Homossexualismo leva Lady Francisco à justiça.  escrito em domingo 18 novembro 2007 08:49

Revista Amiga - Tv Tudo - Edição n° 500

Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 1979.

Lady Francisco pode ser muito liberal, mas quando o assunto é homossexualismo, sai da frente. Ela ameaça cancelar a estréia do filme "Os Foragidos da Violência", de Luís Miranda, programada para o próximo dia 10.

Lady está decidida a recorrer à Justiça para que o filme Os Foragidos da Violência não seja exibido. Ela afirma que foi enganada nas cenas de lesbianismo.

A cena com Cátia Carneiro irou Lady, mas com Mário Cardoso foi tudo bem.

A atriz acusa o cineasta de ter distorcido o argumento e o roteiro do filme e vai entrar com um pedido de interdição da fita com base no uso indevido de cenas homossexuais entre ela e a atriz Cátia Carneiro.

Luís Miranda, no entanto, está munido de documentos que comprovam a seriedade de seu trabalho e acusa Lady de tomar atitude escandalosa "própria de uma atriz tupininquim". Lady Francisco, ao que parece, não pretende chegar a nenhum entendimento.

"Ele me enganou dizendo que no filme eu faria o papel de uma mulher casada e no final eu apareci apenas como uma sapatona. As cenas de sexo entre mim e Cátia deveriam, como ele me disse, ser, no filme, parte de um sonho erótico de meu marido, mas acabaram transformadas em provas de um relacionamento anormal de uma mulher frustrada. Ele falseou o argumento e isso não está no contrato. Agora não sei até que ponto posso confiar nele, mas já contratei advogados para resolver o caso judicialmente."

Mário Cardoso, que também trabalha no filme, afirma que ele e Rubens de Falco também desconheciam o argumento do filme. Mesmo assim ele não viu nada de estranho na história.

"Eu nem sabia direito que papel teria de fazer, mas depois vi o filme e achei maravilhoso. Luís é um cara premiado até internacionalmente e não acredito que tivesse segundas intenções. Mas quero deixar claro que se Lady está brigando, deve ter as suas razões."

Lady Francisco pretende conseguir na justiça uma indenização por danos morais, porque, segundo ela, "é preciso que os artistas não sejam usados como objeto. Uma falsa imagem a respeito da moral de um ator pode ser prejudicial".

Cineasta diz que a atriz nem viu o filme.

Demonstrando muita tranqüilidade, o cineasta Luís Miranda, que produziu, entre outros, os filmes O Anjo da Morte, Um Edifício Chamado 200 e A Selva, diz que não acredita que Os Foragidos da Violência venha a ser interditado.

"Lady nem viu o filme. No dia da exibição na cabine do Méridien, ela chegou atrasada e ouviu de uma jornalista que seu papel era o de uma lésbica. Ficou furiosa e não quer me escutar. No contrato que assinou está escrito que o filme seria produzido e dirigido por mim e que não tinha argumento. O filme é bom, ela está maravilhosa e os 4% que vai receber não são de se jogar fora."

Embora ressentido com as ofensas que Lady Francisco vem lhe fazendo através da imprensa, Luís não guarda mágoas dela.

"A Lady é uma grande atriz e, como todas, é temperamental. Isso não invalida o seu trabalho e o seu talento que todo mundo reconhece, inclusive no Marron Glacé. O que está faltando é informação, que ela não quer ter. Vimos, em República dos Assassinos, o Tarcísio Meira transando com Anselmo Vasconcelos e sabemos que todos são machões. Em Lágrima Amarga, a grande Geneviève Page é uma lésbica, e assim por diante. Há grandes artistas fazendo estes papéis sem botar a boca no trombone. Eu quis dar uma de Fellini e não contei como seria o filme. Quando o artista sabe qual vai ser o seu papel e tem o argumento na mão, normalmente ele muda tudo e o diretor sente dificuldade de comandar a representação. Por isso os grandes diretores vão deixando que o filme cresça sem dizer como está sendo o seu trabalho. Lady não vai conseguir interditar meu filme, porque estou esperando que ela venha a compreender o ridículo dessa briga."

Reportagem de Marly Schall

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Projeto Casa da Criação Janete Clair  escrito em quarta 26 setembro 2007 14:37

 

Revista Amiga - TV Tudo - N° 777

Rio de Janeiro, 10 de abril de 1985.

Projeto Casa da Criação Janete Clair.

Dias Gomes - " O público sente falta de Janete Clair. "

Com a Casa de Criação ele tenta, na Globo, incentivar os autores para acabar com a crise das novelas.

" A telenovela, espinha dorsal da programação da Globo, passa por uma crise de imaginação. " A afirmação é de Dias Gomes que, preocupado com o futuro do gênero, apresentou à direção da emissora o projeto Casa da Criação Janete Clair, um departamento cultural que visa à formação de autores. A Rede Globo levou cinco anos  estudando o projeto. Hoje, o sonho de Dias Gomes se realiza, mas a situação é de desespero. " De 1980 para cá, a novela se estratificou numa fórmula bem-sucedida que dá audiência. Houve uma acomodação geral em virtude da posição da Globo de líder absoluta no gênero que nós, autores, não aceitamos porque é suicida. "

A crise de autores é recente. Até o final da década de 70 havia uma " inquietação saudável, os autores podiam experimentar novas temáticas e o panorama era bem diversificado. " As primeiras tentativas de viabilizar a Casa da Criação Janete Clair partiram da própria autora, que mantinha contato permanente com a direção da emissora. Dias tem consciência de que o público sente falta do inconfundível estilo novelista que " conseguia envolver um mundo de espectadores. A Janete tinha uma coisa importante para os autores de televisão, que é o dom de empolgar, de jogar com as emoções populares. Nos queremos devolver às novelas essa característica. " Segundo o organizador, o público foi fator determinante na realização do projeto. " Sinto que o espectador está se cansando com o atual andamento das novelas e, antes que o problema tome proporções desastrosas, temos que corrigir. No Brasil de hoje, só se fala em mudar, em novos tempos e esperanças. A televisão tem que que refletir esse ar de renovação. "

Produção em Série

O crescimento da Rede Globo, reconhecida mundialmente como a quarta maior cadeia de TV, não determinou, como deveria, mudanças no setor da criação. " Na época em que apresentamos o projeto, eles acharam uma excelente idéia colocar em debate a dramaturgia em TV e apoiar os autores mas acabaram esquecendo. A Globo continuou a trabalhar os textos da mesma maneira artesanal de há vinte anos, quando foi fundada. " Todas as previsões de Dias Gomes se concretizaram: a novela passou a uma posição menos estável e deu vazão a um outro gênero, as minisséries. Finalmente, as idéias do dramaturgo saíram do papel para a prática e a Casa da Criação entrou em funcionamento. Dentro de um ano, ele espera ter um arquivo de idéias que, a cada final de novela, coloque à disposição da emissora três ou quatro sinopses. Uma série de palestras, seminários e conferências estão em andamento. No primeiro encontro, programado para o início de abril, serão debatidos a origem, evolução e a atual crise das novelas. Além dos autores contratados pela Rede Globo, a Casa da Criação vai trabalhar com novatos na arte de escrever e escritores consagrados que não fazem televisão. " Pretendemos encomendar sinopses aos romancistas e autores de teatro. Havia uma subestimação, um preconceito com a televisão, que ainda existe, mas que, felizmente, não parte de pessoas inteligentes. " A Casa também é responsável pelos especiais e minisséries e, futuramente, por toda a linha de humor e shows. Dias Gomes sabe que tem muito trabalho pela frente. Se depender do esforço da equipe, composta por Ferreira Gullar, Euclydes Marinho, Doc Comparato e Joaquim de Assis, dentro em breve a Casa da criação estará movimentando um número enorme de escritores e intelectuais. O espaço para novos autores está em aberto. Todos os textos, sejam de autores contratados ou desconhecidos, serão lidos e discutidos numa reunião mensal. Se a sinopse, depois de apreciada por todos, for aprovada, será entregue à Central Globo de Produções. " É um processo óbvio que só vem melhorar e enriquecer o nível da programação. " Dias acredita que, apesar de tudo, existem " bons autores capazes de abrir os horizontes da novela no Brasil. Nós acreditamos e estamos apostando na capacidade dos novelistas. A Casa da Criação não é um organismo censor, e, sim, de apoio. " Dias Gomes lembra o tempo em que dividia com Janete Clair os horários da Globo. Hoje, existe um rodízio de autores, mas a tarefa continua a ser " massacrante. Novela é um trabalho braçal, um feito atlético mais que intelectual. Precisa ser um Hércules para suportar a série de pressões que são impostas a um autor. São 180 capítulos a serem escritos e você ainda tem que arrumar tempo para atender à imprensa, às cobranças, atingir a audiência e servir ao merchandising. " Diante de tantas pressões, o trabalho se atropela e a novela acaba sendo a maior prejudicada. O gênero que " move as multidões " é acusado de descaracterizar a cultura regional. Dias leva a discussão mais longe e culpa a " própria televisão que tem um lado bom, que é a integração nacional, e um lado mau, que é o de matar a cultura regional. É preciso que o governo tome providências para revitalizar e defender esses valores. Existe uma lei que obriga as emissoras regionais a transmitir determinadas horas de programação local, mas o veículo não tem nenhum interesse porque é dispendioso. " Com esperanças na Nova República, Dias uniu-se a um grupo de intelectuais e redigiu um documento que foi entregue ao Presidente Tancredo Neves, contendo as reivindicações básicas e consensuais dos vários setores da cultura. Dias vivenciou " periodos difíceis para o artista brasileiro " e lembra que, " nos  últimos vinte anos, não havia nenhuma possibilidade de luta porque cultura era palavrão. Hoje, criou-se um ministério que, espero, não se torne um cabide de empregos e de fato tenha autonomia e verba para se dedicar à cultura sem, evidentemente, descuidar da educação. "

Autores acham a idéia sensacional

As opiniões divergem em alguns pontos. Mas todos os autores de novelas não hesitam em afirmar que, há menos de um mês da estréia, a Casa da Criação Janete Clair é " o maior sucesso. " E não poupam elogios ao " pai da idéia ", Dias Gomes.

Gilberto Braga: - " A casa de autores não só é necessária como óbvia. A televisão precisa urgentemente de novos talentos. "

Glória Perez: - " A casa tem por objetivo uma coisa que acho fundamental: abrir espaço para novos escritores. Sou um exemplo de como são raras as oportunidades de ingressar no meio; batalhei 10 anos até surgir a primeira chance. Agora, não vai ser fácil, pois escrever para a televisão é uma barra. O processo de criação esbarra numa série de coisas que acabam te afastando do teu objetivo inicial. "

Ivani Ribeiro: - " A idéia é sensacional e, se bem encaminhada, pode fazer com que muita coisa seja mudada em termos de novela. "

Benedito Ruy Barbosa: - " Os jovens é que vão sentir mesmo os efeitos desta iniciativa. Vale a pena tentar. E tudo o que se faz no sentido de melhorar, sempre vale a pena. "

Carlos Lombardi: - " O autor é praticamente iniciante: escreveu apenas Vereda Tropical para a Globo e Como Salvar Meu Casamento, para a Tupi. Entre os capítulos 100 e 250, escreveu O Todo-Poderoso para a Bandeirantes, além de colaborar com Sílvio de Abreu em Jogo da Vida e Guerra dos Sexos, e com Cassiano Gabus Mendes em Elas por Elas. Para Lombardi, " só o tempo poderá dizer que benefícios trará a Casa da Criação. Mas acredito que teremos trabalhos mais bem-feitos, uma vez que os novelistas se reunirão e haverá mais gente para opinar. O que espero realmente deste departamento é que ele fortaleça a novela, que promova uma ampliação em termos de temática. E isso acontecerá a partir do momento em que os autores deixarem de ser núcleos isolados dentro de sua casa. "

Reportagem de Maria de Lourdes Soares e Renato Savarese.

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O Astro Responde  escrito em terça 25 setembro 2007 03:49

Revista Amiga - TV Tudo - N° 733

Rio de Janeiro, 06 de junho de 1984.

O Astro Responde

Maitê Proença

(Atriz)

Qual o seu nome todo? Onde você nasceu? Como começou a sua carreira? Quantas novelas você já fez? É verdade que você vai para a TV Manchete viver a Marquesa de Santos num seriado?

(Marcos Lopes - SP)

Maitê Proença: - Meu nome todo é Maitê Proença Gallo, com dois l mesmo, sou paulista e estou com 26 anos plenamente vividos. Antes de seguir a carreira artística fui tradutora de inglês e francês, dei aulas, e durante algum tempo estudei mímica. Tudo muito ligado a relações humanas, pois sempre gostei de ter contato com gente e isso é o que importa para mim. Gosto de aprender a conviver e isso só acontece quando você tem chances de trocar experiências. Comecei minha carreira na extinta TV Tupi, com a novela Dinheiro Vivo, de Mário Prata. Topei fazer novela porque a minha ligação de amizade com o Mário era muito profunda. O trabalho não foi bem o que eu imaginava, mas mesmo assim toquei o barco para a frente. Estava indecisa em trabalhar na novela porque estava fazendo teatro experimental e não queria acumular duas funções, televisão e teatro, já que eu era uma atriz totalmente inexperiente. Mas assim mesmo aceitei a barra. No teatro fazia parte do grupo de Antunes Filho, mas não tive oportunidade de ter convívio com o público, já que deixei a companhia às vésperas da montagem de O Eterno Retorno, peça inspirada na obra de Nélson Rodrigues. Posteriormente recebi convite da Tv Globo para participar de Coração Alado, de Janete Clair. Só que sofri um acidente e meus planos foram adiados. Depois estreei As Três Marias, ao lado de Glória Pires e Nádia Lippi. Aprendi muito com Herval Rossano, o diretor da novela, o que me valeu como experiência para trabalhos futuros. Fiz posteriormente Jogo da Vida e meu último desempenho em novelas foi em Guerra dos Sexos. Em cinema fiz Prova de Fogo e em teatro trabalhei com Armando Bógus em Mentiras Alucinantes de um Casal Feliz. Realmente vou fazer a Marquesa de Santos na primeira minissérie da TV Manchete. Tenho certeza de que será um trabalho fascinante sob vários aspectos: nova casa, novo ambiente de trabalho, novos amigos, uma história bonita e intensa. Eu aposto no sucesso desse projeto. A importância de se fazer um papel que vai resgatar a nossa história é fundamental. É interessante saber a respeito das grandes personalidades que são muito pouco conhecidas dos brasileiros. Está sendo altamente gratificante vivê-la.

Gilliard

(Cantor)

Qual o seu nome completo? Qual a data de seu nascimento e onde você nasceu? Como começou sua carreira? Fale-me de seus LPs. Como se sente sendo um dos cantores mais lindos do Brasil? A popularidade e o sucesso mudaram seu jeito de ser? Como vai seu casamento com Silvinha?

(Ivone de Oliveira - SP)

Gilliard: - Meu nome todo é Gilliard Cordeiro Marinho. Nasci em Natal, no Rio Grande do Norte, no dia 17 de dezembro de 1960. Como nasci numa família de artistas, comecei a dar os primeiros passos na carreira muito cedo, assim que ganhei um pequeno acordeão. Na época tinha apenas cinco anos. Participava de todos os festivais do colégio e sentia que aquele seria o meu caminho. Mais tarde tomava parte em programas de calouros e em todo concurso para a escolha do melhor cantor lá estava eu. Logo comecei a compor e um dos concursos me trouxe para o Rio de Janeiro, onde gravei um disco. Foi uma barra. Sozinho, sem conhecer praticamente ninguém, sofri muito. O que me levava adiante era a certeza de estar lutando por uma coisa que gostava. O disco teve excelente repercussão no Norte e Nordeste, mas no eixo Rio-São Paulo nada aconteceu. Porém, não desanimei. Em 78 fui para São Paulo e gravei meu primeiro LP, Aquela Nuvem, que foi o meu grande sucesso. Foi um trabalho feito às pressas, sem muitos cuidados técnicos mas baseado em muito amor e emoção. Meu segundo LP, Pensamentos, já foi feito com mais calma e liberdade. Senti que a gravadora já tinha depositado mais confiança no meu trabalho e respeitavam o que eu queria. Meu terceiro LP, que levava meu nome, foi resultado de meus dois trabalhos anteriores. Foi um disco mais maduro e onde soltei minha voz. Meu último LP foi um trabalho mais elaborado, onde mostro a minha vivência desde a infância até o meu casamento com a Silvinha. Você realmente me acha um dos cantores mais lindos do Brasil, Ivone? Só posso me sentir emocionado e feliz com esse  título, não é mesmo?  Embora a beleza não seja fundamental, é sempre um aspecto agradável em nossa profissão. A popularidade e o sucesso não me mudaram em nada, continuo, graças a Deus, a mesma pessoa de antes. Procuro transar tudo com muita simplicidade, sem estrelismos ou falsas imagens. Meu casamento vai de vento em popa, tanto é que já encomendamos um bebê, que deve nascer em setembro.

O Astro Responde

Revista Amiga - TV Tudo - N° 616

Rio de Janeiro, 10 de março de 1982.

José Wilker

(Ator)

Fale-me um pouco de sua carreira e qual o personagem que mais gostou de interpretar.

(Léa Regina A. - SP)

José Wilker: - Já fiz muita coisa boa em minha carreira e acredito que tenha mais pontos positivos do que negativos. Na televisão, já fiz muitos personagens diversificados. Entre as novelas nas quais trabalhei, destaco: Anjo Mau, de Cassiano Gabus Mendes, Ossos do Barão, excelente novela de Jorge Andrade, e atualmente interpreto Sidney, de Brilhante. Meu último trabalho em TV tinha sido em Plumas e Paetês, uma novela que não me agradou totalmente. Resolvi então fazer um recesso voluntário e descansar minha imagem. Com o personagem Sidney, achei que estava na hora de fazer televisão. O papel é bom, a produção da novela é muito bem cuidada e os atores são ótimos. São estes os motivos que me fizeram voltar à TV. Tenho sido recompensado em minha expectativa em relação à novela. Apesar de ter um papel episódico, acho extremamente agradável fazê-lo. No cinema também já fiz muita coisa boa e acho que Dona Flor e Seus Dois Maridos e Bye, Bye Brasil foram os filmes que me deram maior prestígio no Brasil e no exterior. Atuei também em Xica da Silva, Bonitinha, Mas Ordinária, dois filmes argentinos e uma co-produção Brasil / Itália. Gosto de toda manifestação de arte mas, sem dúvida nenhuma, identifico-me muito com o teatro. Sou autor de várias peças tais como: A China É Azul, O Olho Amarelo, Em Algum Lugar Fora Desse Mundo e pretendo este ano montar mais um texto, Margens Plácidas. Resolvi não ser mais produtor, então, só escrevo. Atualmente, faço a adaptação de outra peça, Alice Através do Espelho, de Lewis Caroll, para montagem na Escola de Teatro Martins Pena, da qual sou diretor há dois anos. Aliás, essa escola é a minha maior alegria em termos de realização pessoal. É a coisa sobre a qual mais gosto de falar, justamente porque é a que tem menos divulgação. É importante que as pessoas fiquem sabendo do trabalho de formiga que fazemos lá. Sou diretor porque alguém tem que responder burocraticamente pela escola, mas o trabalho é desenvolvido por mim e por um grupo que leva o projeto adiante. A gente veio para a escola menos com o objetivo de ensinar teatro do que com o propósito de discutir e entender o mesmo. E, a partir dos resultados, ver o que é possível fazer no sentido de redescobrir a importância do teatro. Não para nós, que fazemos, mas para aqueles que o consomem, ou seja, o espectador. O negócio é, em vez de discutir no botequim, ou em casa, criar um centro de estudos, de debates, que levante subsídios para amadores, profissionais e até para o governo, a fim de superar as crises do teatro. Queremos um teatro que traga o espectador de volta às salas. Em termos de cinema, tenho um convite para participar do filme Conversa na Catedral, do romance de Mário Vargas Llosa. Mas ainda estou em negociação. Afora a escola, não há nada planejado. Só tenho contrato com a Globo para fazer mais uma novela ou, então, para ser autor ou diretor de um programa a ser ainda discutido. Quanto a você perguntar qual o melhor personagem que já fiz, não sou ator de achar determinado papel melhor que outro. Para mim todos os personagens apresentam pontos positivos e negativos, e cabe a nós, atores, desenvolvê-los da melhor maneira possível.

Norma Blum

(Atriz)

O que você achou do papel na novela Ciranda de Pedra? Qual o seu trabalho atual? Está atuando em alguma peça de teatro?

(Samantha P. da Costa - RJ)

Norma Blum: - Frau Herta foi um ótimo exercício de interpretação para mim. Fiquei muito feliz com os resultados conseguidos por meu desempenho como Frau Herta. Acho que consegui passar para o telespectador não a imagem de uma alemã nazista, durona e má por vocação, mas sim sofrida, reprimida, castrada e por isso com uma forte armadura, principalmente para se proteger contra os possíveis ataques à sua estrutura frágil de mulher meiga e apaixonada. Para mim, Frau Herta foi um personagem que conseguiu se desenvolver dentro das próprias limitações, porque vivia muito em função dos outros, existia em função do seu amor pelo Prado (Adriano Reis) e pelas duas meninas, Otávia (Priscila Camargo) e Bruna (Sílvia Salgado). Apesar disso sei que consegui dar outra dimensão ao papel. Como trabalho, Frau Herta foi um desafio para mim, a começar por ser uma alemã e o sotaque ter sido sempre usado no Brasil como peça de humor para ridicularizar a figura dos soldados nazistas. E o meu grande problema no início, o que assustou bastante foi exatamente não deixar que o sotaque virasse caricatura e influísse negativamente na dramaticidade do personagem. Acho que venci todos os desafios e fiz de Frau Herta um personagem importante em Ciranda de Pedra, e o que é mais gratificante para nós atores, fiz que meu fosse respeito por meus colegas de profissão. Adoro o que faço, porém, o que mais me angustia em minha profissão é a insegurança que nós atores vivemos. O que a gente conquistou, como categoria profissional na regulamentação da profissão, não está sendo cumprido. O direito autoral que a gente não consegue receber, porque as empresas burlam a lei e não nos pagam. Tudo isto gera uma insatisfação muito grande a nível pessoal, pelo fato de não se ter uma continuidade de trabalho. Por exemplo, antes de fazer Ciranda de Pedra, fiquei sete mêses no desemprego. Acho que a maior parte dos atores, hoje em dia, no Brasil, está vivendo esta situação. Realmente é uma coisa aflitiva e que interfere tremendamente no seu processo de criação. A cada final de trabalho, é uma insegurança saber que não se tem outro papel. Acredito que a única coisa boa que colhi nesses 30 anos de carreira foi o amadurecimento de meu trabalho. Agora, quanto aos aspectos materiais, não tenho muita gratificação porque sempre tive muita dificuldade em conseguir emprego. O mercado está muito restrito e eu não gosto de muita badalação. E isto prejudica muito porque as pessoas acabam esquecendo da gente. Mas tudo bem. A gente vai levando as coisas do melhor modo. Dentro do possível tento sempre me fazer notar e ficar aberta a todo o tipo de trabalho, lógico que na medida em que seja um trabalho de gabarito. A realidade é que qualquer um de nós gostaria de ver sua profissão dignificada. Por isso fico triste quando tenho que fazer outros tipos de trabalho quando o mercado está em crise para os artistas brasileiros. Mas atualmente esse não é o meu caso, graças a Deus. Estou no teatro Mesbla com a comédia, A Bomba de Elizabeth, que é a primeira estréia profissional do escritor, dramaturgo e deputado, Álvaro Valle. A peça está repleta de situações cômicas, com personagens baseados em pessoas comuns. São dez papéis interpretados por mim, Suely Franco, Priscila Camargo, Marcelo Picchi, Rosemberg, Tânia Loureiro, Haroldo Botta, Farneto e Aimée. A direção é de Aderbal Júnior. A peça basicamente conta a história de uma bomba que atingiu um embaixador africano em visita ao Brasil, jogada por uma jovem, Elizabeth (Priscila Camargo), filha de uma família tradicional que cria um clima aterrorizante para a própria família. Mas ela não é logo descoberta. A culpada passa a ser Eliete (Tânia Loureiro), uma jovem alienada que estava em Miami, quando explodiu a bomba. As duas são presas, uma pelo grupo terrorista da francesa Garaudy, meu personagem, e Eliete pela polícia. O cômico está no desenvolvimento da ação a partir desses dados e do insólito que serve de impulso à peça. Estou gostando muito de participar dessa peça e de poder contracenar com um elenco tão maravilhoso.

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Amiga Entrevista  escrito em domingo 23 setembro 2007 14:04

Fernanda Montenegro & Débora Duarte

Revista Amiga - Tv Tudo - Edição N° 483

Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1979.

 

As duas faces do amor à arte 

Duas grandes atrizes. Dois grandes talentos de gerações diferentes. Nesta entrevista, Fernanda Montenegro e Débora Duarte falam de seu primeiro encontro na vida e na arte. Dão suas opiniões acerca da televisão e do teatro. Contam coisas e falam de sua admiração mútua. Como na novela da Rede Bandeirantes, elas conversam cara a cara!

- Há muito tempo se sabe que existe uma admiração muito grande entre vocês a nível profissional. Quando começou esta admiração mútua?

Débora - Minha admiração pela Fernanda é muito antiga. Foi a primeira grande impressão que tive, a ponto de admirar especificamente um artista. Quando vi a Fernanda pela primeira vez, fiquei com aquela imagem na cabeça. E isto veio me acompanhando desde 1967. Depois disso, segui de perto o trabalho dela.  Lia todas as entrevistas que ela dava e tinha, acima de tudo, uma vontade imensa de um dia trabalhar com ela. Isto porque acho que depois de um determinado nível, as pessoas possuem, além de talento e tudo o que as cerca, muita técnica. Isto diferencia um artista do outro. É uma característica pessoal. No trabalho da Fernanda, ela prevalece acima de tudo. Por mais versátil que seja o seu trabalho, há algo que domina, que me encanta e me apaixona. A Fernanda é um mito.  Conhecê-la e trabalhar com ela foi maravilhoso porque comecei a compreender por que uma pessoa pode chegar a ser uma grande atriz.

- Então, é a primeira vez que trabalham juntas?

Débora - É. Eu bebo e sugo muito a Fernanda. Devo até deixá-la exausta. Eu olho muito quando ela esta por perto. O que faz, o jeito que fala com as pessoas. Tudo isto me apaixona e prende minha atenção.

- E você, Fernanda, o que tem a dizer?

Fernanda - A gente está aqui fazendo uma entrevista, porém, estamos jogando no mesmo time e temos uma admiração mútua muito grande. Eu me lembro de Débora desde que estive em São Paulo por volta de 67 e vi o rosto dela na televisão. Tinha uma tal integridade e uma tal interação com as coisas que estava fazendo, que prendia. Isto, na televisão, é difícil. É comum perceber-se uma espécie de névoa no olhar do ator que está representando. Um tipo de cortina que dá a impressão de que ele está olhando, mas não está. Ele está se neutralizando dentro da sua memória para passar o seu texto e se livrar logo porque depois vai ter um outro texto. É um processo mais de memória do que, propriamente, de interpretação. No caso da Débora, não vi aquela névoa que sempre me incomodou muito. Essa inteligência de se colocar no trabalho foi o que me levou a seguir a Débora na televisão. Sempre que ela está no elenco, procuro vê-la porque ela é um elemento extremamente rico.

- Você acha que a Débora devia se dedicar um pouco mais ao teatro?

Fernanda - Lamento que ela não se divida. Eu falo sempre do ponto de vista do palco e do teatro porque sou uma mulher viciada nisto. Sou deformada pelo meu ofício. Fico pensando: que pena, este bicho teatral não estar também no seu espaço do teatro! Acho que o público está perdendo isto em termos mais profundos. Não é questão de melhorar de estágio. Eu respeito muito as pessoas que são fiéis ao seu processo de vida. E também não acho que a televisão deteriore ninguém, melhore ou piore. Depende da maneira como a coisa é feita, jogada. É uma indústria de imagem, de emoção. E eu conheço gente de grande qualidade que está dentro desse processo de trabalho.

- Já que a Fernanda fez uma comparação entre o teatro e a televisão, você acha que o ator brasileiro tem condições de sobreviver sem a televisão?

Débora - A televisão oferece um campo maior de trabalho e melhores salários que o teatro atualmente. mas, nesta mesma medida, ela transforma as pessoas em funcionários públicos de TV. É menos criativo, menos estimulante e menos amado. Eu tenho uma paixão muito grande pela televisão. Me fascina muito.

- E o teatro? Não te fascina?

Débora - O teatro me fascina porque eu poderia fazer um trabalho mais aprofundado, mais maduro.

- Quer dizer, então, que a televisão para você não é apenas um meio de sobrevivência, mas também um ponto de identificação?

Débora - Olha, quando falo do meu trabalho, difícilmente uso a palavra carreira. Para mim é profissão. A Fernanda disse ofício. É Até mais bonito. Mas televisão é um trabalho que me gratifica muito. Além de gostar, eu tenho uma necessidade absoluta de ter um salário no fim do mês. Preciso dessa independência para sobreviver bem.

- E você acha que a televisão lhe oferece isto?

Débora - Sempre consegui isto através da televisão. Mas é uma independência muito instável. Acho muito sólida a segurança de alguém que conseguiu seu trabalho e sua independência através de um veículo como o teatro, teria mais estabilidade e segurança. Mas sempre fui preguiçosa. Nunca arregacei as mangas e procurei construir, produzir e seguir adiante. Sempre foi mais fácil ser procurada e continuar na televisão.

- Fernanda, o que você pensa disso tudo, já que há quase dez anos estava fora da televisão?

Fernanda -  Eu fiz televisão e teatro juntos por quase vinte anos. Uma loucura, não é? Particularmente, e isso é uma opinião pessoal, acho que a luta dentro de uma televisão é como numa indústria. É arrasadora. Pouquíssimos conseguem ter transito no 2° ou 3° andar, onde está uma diretoria. Sair para jantar com o dono da estação, com o diretor artístico. Tem que haver um envolvimento extremamente executivo. A luta pelo poder é surda. E não é só o talento que vale. Diante disto, achei que o teatro é um campo de artesanato. Dá uma vida mais humana, menos tensa. Não é uma luta com relação "àquela nova diretoria" àquela novela" que vai entrar e talvez você não tenha um papel tão bom como na outra. É preciso não desagradar o autor para ele não diminuir o seu papel. É uma experiência de longos anos. Eu não estou inventando. As pessoas têm de ir a festas, cortejar a alta cúpula. Tudo isto é muito exaustivo, do meu ponto de vista. No teatro, você talvez não tenha tantas capas de revistas mas é um processo de vida mais antigo que me agrada mais. Dentro da televisão, não tenho vontade de fazer este tipo de jogo. Já estou beirando os 50 anos e me sinto cansada. Só se eu tiver realmente precisando comer, pôr algum calor no meu estômago. Mas, há quem viva bem nisto.

- E você, Débora, o que acha disto?

Débora - A Fernanda, quando fala, toma o cuidado de não julgar. É o respeito pelo ser humano. Eu não acho que exista esse tipo de pessoa que tenha facilidade para viver assim. Acho que na televisão só existem dois casos: as pessoas que dão certo porque têm sorte, independente do talento, ou porque são muito hábeis. O que é penoso na televisão é que nunca se consegue chegar lá só pelo talento. Você também tem uma dura opção: pelo prestígio ou pela popularidade. E você tem que fazê-la bem feita. Se optar pela popularidade, tem que construir uma imagem, um personagem fora da novela. O personagem que você é como pessoa. Tem que ter muito talento e usá-lo de uma maneira diabólicamente difícil de conservar. Existe a opção pelo prestígio que é onde se ganha menos, mas tem trabalho, provavelmente, a mais longo prazo. Também é triste porque para manter o prestígio, não vai bastar só o trabalho. É tudo um jogo político extremamente exaustivo.

Fernanda - É o que eu estava falando. E mesmo no momento atual, o mercado é muito pequeno.

Débora - Veja você. Eu estou na Bandeirantes há menos de um ano. Vim da Tupi onde fiquei um tempo e antes vinha da Globo. Entrei na televisão com muita facilidade. Não paguei o maior preço de todos que deve ser o de entrar para fazer qualquer coisa. Não passei por isso porque sou filha de artistas. Quando vi, estava no meio do caminho. Mas acho que nunca fiz coisas certas na televisão. Comercialmente, nunca fui um produto definido, nunca vendi uma imagem.  Depois, fui tendo vários papéis de menina rebelde e ficou essa imagem mais ou menos. Por outro lado, quando acontece de ser amiga de alguém influente, é sempre por acaso. Esta é a primeira vez que estou estrelando uma novela, apesar de sempre ter  tido bons papéis. Quando saí da Globo, ganhava muito mal. De repente, fui para a Tupi, a novela deu certo e meu salário aumentou. Quando vim para cá, aumentou mais e agora estou ganhando bem. Mas dependeu da sorte.

Fernanda - A Débora é uma mulher extremamente consciente. Tudo o que ela colocou reflete esta maturidade. É uma pessoa plena.

Débora - Evidentemente, tudo que estou dizendo aqui na frente da Fernanda talvez dissesse melhor se ela não estivesse aqui.

Fernanda - Esta entrevista, na realidade, é a primeira conversa que temos mais de perto. Estamos trocando impressões, como companheiras de trabalho. Infelizmente, nesta novela quase não nos encontramos. 

 

 

 

 

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Artur Da Távola - Críticas  escrito em domingo 23 setembro 2007 05:31

Artur da Távola - Críticas

Revista Amiga N° 481 -

Rio de Janeiro, 08 de agosto de 1979. 

Não são agradáveis as verdades ensinadas pela Lídia de Cleide Yaconis!

Envelhecer é uma dor que só pode ser entendida por quem envelhece. Ao lado do fato biológico, ao qual é subordinado por um determinismo, o ser humano, na sua incompletude e imperfeição, também foi dotado de uma consciência da vida que torna absurdos o envelhecimento e a morte.

Sendo um fato natural, um inevitável ciclo biológico, envelhecimento e morte deveriam ser prazenteiros como os demais, a alimentação, o amor, a procriação. No entanto, doem, machucam, parecem absurdos, principalmente porque o ser humano envelhece no corpo sem ter alimentado o espírito de todas as necessidades por ele reclamadas. Uma espécie de fome, sempre atrasada, perdura com ele: ela precisa ser saciada depois. Precisa ser saciada um dia. Mesmo quando tudo pareça indicar  que não dá mais. E quem se recusa a envelhecer e se insurge contra o absurdo do corpo ir caindo quando o espírito ainda é jovem e a mente esplende, ainda tem contra si o risco do ridículo, do deboche e do escárnio de quem só quando começar a envelhecer saberá o quanto doi e o quanto havia, até de méritos, na atitude que se rebelava contra o absurdo incrustado no determinismo de ansiar pelo infinito mergulhado na certeza da finitude, da morte.

Talvez seja porque todas as vidas que temos dentro não cabem em toda a nossa vida, como costumo sempre dizer. Todas as vidas que temos dentro, ficam clamando por viver, por ser experimentadas, por encontrar respostas no mundo. As vidas que levamos dentro medem a nossa juventude, não importa a idade. Daí, a dificuldade de harmonizar os impulsos em contradição, acotovelando-se para dominar o nosso ser. Daí o risco de se perturbar, de perder o senso da realidade.

Na novela Gaivotas, de Jorge de Andrade, obra que está marcando a mudança de padrão da Rede Tupi, há uma personagem, a Lídia, representada por essa grande atriz Cleide Yaconis, que nos traz e joga na cara todo o absurdo de envelhecer. É uma coroa de sessenta e tantos, cheia de operações plásticas na terrível luta contra o tempo. Casou-se quatro vezes, ficou só e curte jovens e motocas. E como a atriz é notável, essa personagem salta da tela e invade a vida de todos nós qual as máscaras do teatro, a significar, em suas expressões extremas, a íntima relação entre a comédia e a tragédia do viver. Por isso, aliás, teatro é simbolizado por duas máscaras com reações extremas. A máscara é símbolo da representação humana. E cada pessoa em sua vida vai formando uma carapaça de defesas que funcionam sobre o seu verdadeiro eu como uma máscara. É o eu externo também chamado persona, expressão que deu origem à palavra personagem, isto é, a representação externa do indivíduo, aquela com a qual ele se defende do mundo e tenta enganar a todos os demais ,  a começar por ele próprio, que acaba acreditando que é o que representa ou que representa o que é. E entre rir e chorar divide a sua peripécia de viver. Para morrer.

Tudo isso revela a íntima relação do teatro com a vida, da arte de representar com a arte de ser. E a mistura profunda dos dois planos, o da representação e o da realidade.

Quando ocorre haver uma atriz de força, mérito, sensibilidade, profundidade, ela vai buscar o aspecto mais mascarado do ser e o representa em estado extremo, para, com essa representação em estado extremo, significar o absurdo em que se transforma a nossa comédia individual e a nosa tragédia de seres nascidos com a ânsia do infinito, do absoluto e da verdade mas obrigados a se submeter ao relativo, ao finito, ao imperfeito. E da rebelião entre a condição limitada e a mente ilimitada; entre a ânsia de vida e o mistério da morte brota uma guerra de mil faces, cruel, dolorosa, uma das quais (faces) é representada pela luta desesperada contra a velhice, a entrega, a feiúra, o fim.

Este embate terrível é o que Cleide Yaconis sabe representar com a sua personagem Lídia, patética e desesperada. O ator, além de representar e expressar, é também, um acentuador. Ele coloca a emoção, o impulso e a defesa em estado extremo, tal e qual o traço de um caricaturista da dor, para fazê-lo melhor entendido pelo ser humano que está na platéia. É um amplificador das vivências mais dolorosas, confusas e sem respostas do ser. Aqui, não contenho o impulso de jogar com a palavra, tentando encontrar um significado novo em seu som: amplifica-a-dor. Sim um ator é um amplificador na medida que amplifica-a-dor de todos nós personagens que constrói na graduação que vai entre a máscara da alegria e a máscara da dor.

Esta personagem Lídia saída do talento de Jorge Andrade, vem se somar a tantas outras criações de diversos dramaturgos que pintaram tipos assim desesperados diante do envelhecer. Teatro e cinema são pródigos neles e os criadores dão, cada um, o seu depoimento existencial, encontrando uma forma própria de se defrontar com esses fantasmas que a todos atinge: velhice e morte.

Cleide Yaconis com a sua tinta intensa, expressiva, descarnada, implacável, está ensinando através do desenho grotesco, fantasmagórico, algo demonológico da sua Lídia, que o desespero pode se misturar a formas de juventude remanescentes e que clamam por viver ainda que retardatárias. Ao fazê-lo, transforma as homeopáticas aparições possíveis num gênero que vive de capítulos diários e de apenas breves flagrantes de cada membro de elencos gigantescos em verdadeiros momentos de reflexão. Porque reflexão vem de refletir e quando a atriz, em sua grandeza, reflete de maneira violenta a reação do ser humano diante da morte e da velhice, ela nos ensina a encontrar a verdadeira juventude e a verdadeira velhice que se escondem, brincalhonas, dentro de cada idade e de cada fase da vida.

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